Ser humano na era da neurociência e da inteligência artificial implica explorar cuidadosamente os pontos de intersecção da complexidade, onde ideias válidas se encontram, no entanto, em tensão, revelando subtilezas e desafios que não devem ser ignorados. Cada página expressa a(s) tensão(ões) existente(s) entre as ideias e no seio de cada tema, que emergiram nas discussões coletivas, e é depois complementada por reflexões dos investigadores da rede NHNAI.

Complexidade na Saúde #7: Utilizar a IA para prevenir o isolamento social, preservando simultaneamente as interações humanas

Os participantes nos debates da NHNAI reconhecem que algumas ferramentas de IA (como robôs de companhia, chatbots…) podem atenuar e prevenir o isolamento social, uma vez que conseguem interagir com as pessoas imitando a interação humana. Essas ferramentas podem proporcionar uma sensação de contacto e afeto às pessoas que se sentem sozinhas. Além disso, os companheiros artificiais podem ser realmente úteis para os profissionais de saúde que não têm tempo para falar com todos os doentes, ou em locais onde não há profissionais de saúde suficientes. Por fim, os robôs são utilizados como mediadores para ajudar a comunicar melhor com os outros, como é o caso das crianças autistas.
No entanto, os participantes salientam a importância de preservar as interações humanas, que parecem estar no cerne dos cuidados de saúde. Os participantes destacam que o contacto humano não pode ser substituído por nenhuma ferramenta de IA. Além disso, os participantes enfatizam o risco de desenvolver uma dependência excessiva dessas ferramentas, o que pode desencadear ou aumentar o isolamento social.

The following ideas can be found in the global and local syntheses downloadable here

  • (Global – Health) Maintaining empathy and human relationship at the core of healthcare
  • (Portugal – Health) Desirable: Technological advances may help fulfill social needs
  • (Taiwan – Health) Desirable: Caregiving robots
  • (Canada – Education): Overcoming loneliness with AI technologies
Perspetivas da rede académica da NHNAI:

Federico Giorgi (investigador de pós-doutoramento em filosofia, Universidade de Namur, ESPHIN) e Nathanaël Laurent (professor associado de filosofia da biologia, Universidade de Namur, ESPHIN, Bélgica)

A questão analisada neste contexto complexo é hoje absolutamente central, uma vez que, na sociedade contemporânea, é um pouco mais difícil do que no passado estabelecer relações duradouras. Muitas pessoas, especialmente os mais jovens, sentem uma certa desorientação perante estas mudanças que estão a remodelar a forma como socializamos.

Das duas ideias opostas consideradas pelos participantes no debate — por um lado, que a IA poderia ajudar a superar sentimentos de isolamento e, por outro, que esses sentimentos correm o risco de se intensificar com o uso excessivo das novas tecnologias —, os estudos psicológicos realizados até agora tendem a apoiar a segunda: a visão de que é impossível obter os mesmos benefícios emocionais de uma interação com uma máquina que de um relacionamento humano (Pacilli, Giovannelli & Spaccatini, 2021). [1]

Isto não significa, no entanto, que não existam casos específicos em que possa valer a pena confiar nas máquinas em vez de noutros seres humanos — por exemplo, no caso de indivíduos cegos ou surdos, que poderiam tornar-se mais independentes através da utilização de dispositivos tecnológicos altamente avançados e, assim, sentir-se mais livres.

No entanto, mesmo no caso de pessoas com deficiência, a valiosa contribuição prestada pelas máquinas não substitui uma relação humana, mas sim uma forma de assistência prática que, de outra forma, exigiria que a pessoa dependesse de outros. Nos momentos em que uma pessoa cega ou surda deseja confidenciar-se com alguém, é natural que recorra a um ente querido em vez de a um computador.

[1] M. Pacilli, I. Giovannelli & F. Spaccatini, Psicologia sociale dei media digitali, Maggioli, 2021.