Ser humano na era da neurociência e da inteligência artificial implica explorar cuidadosamente os pontos de intersecção da complexidade, onde ideias válidas se encontram, no entanto, em tensão, revelando subtilezas e desafios que não devem ser ignorados. Cada página expressa a(s) tensão(ões) existente(s) entre as ideias e no seio de cada tema, que emergiram nas discussões coletivas, e é depois complementada por reflexões dos investigadores da rede NHNAI.

Complexidade e democracia #7: Defender a singularidade humana na era das máquinas que imitam os seres humanos

Os participantes destacam a importância de preservar certos valores e características que são exclusivos da natureza humana, como a espiritualidade, a sabedoria, a emocionalidade, a criatividade, a autonomia, o pensamento crítico, a imaginação, a consciência, a empatia… e outros. Algumas destas capacidades são fundamentais nos nossos sistemas democráticos e jurídicos e não podem ser genuinamente reproduzidas por máquinas. É, por exemplo, o caso da empatia e da capacidade de ouvir quando surgem dificuldades e complexidades durante um julgamento ou numa situação jurídica difícil.
No entanto, os participantes manifestam preocupação com o desafio crescente de distinguir entre humanos e máquinas, bem como entre conteúdos digitais reais e falsos (incluindo, por exemplo, conteúdos gerados por IA apresentados como criados por humanos). Mesmo que a regulamentação jurídica imponha a obrigação de informar os cidadãos quando estes interagem com sistemas de IA ou com conteúdos gerados por IA, poderá tornar-se difícil preservar e defender a nossa singularidade humana se as capacidades das máquinas de imitar o ser humano continuarem a crescer. O problema parece já existir no que diz respeito à criatividade.

The following ideas can be found in the global and local syntheses downloadable here

  • (Global – Democracy) Preserving the specificity of human beings (compared to machines)
  • (Global – Democracy) The (difficult) future challenge of distinguishing between AI and humans

 

Perspetivas da rede académica da NHNAI:

 

Nathanaël Laurent (professor associado de filosofia da biologia (Universidade de Namur, ESPHIN, Bélgica)) e Federico Giorgi (investigador de pós-doutoramento em filosofia) (Universidade de Namur, ESPHIN – CRIDS, Bélgica)

A literatura filosófica tem-se centrado frequentemente na questão das supostas semelhanças entre os seres humanos e as máquinas. De facto, uma das razões pelas quais a Inteligência Artificial foi inicialmente inventada e depois desenvolvida foi precisamente a curiosidade e a ambição de descobrir se era possível criar um algoritmo capaz de responder a uma série de perguntas tal como um ser humano o faria — e de uma forma tão realista que pudesse até enganar um examinador humano. Foi esta a questão que levou Alan Turing a conceber o seu famoso Jogo da Imitação (Turing, 1950).
Por outro lado, mesmo que assumamos — sem admitir — que um algoritmo é capaz de passar no teste de Turing, o qual, como é sabido, requer condições experimentais muito específicas (tais como a máquina ser colocada numa sala separada do examinador), isso não significa que uma máquina possa substituir um ser humano sem que ninguém repare. Como observa o biólogo Giuseppe Longo, existe uma lacuna irredutível entre uma imitação e o fenómeno que imita — entre uma máquina e um ser vivo (Longo, 2021).
Mesmo o algoritmo de reconhecimento de imagens mais sofisticado tem de realizar um complexo processo de classificação antes de aprender a reconhecer um gato, enquanto uma criança é capaz de o fazer depois de ver um apenas uma vez. Essa experiência (ver um gato pela primeira vez) gera emoções na criança — tais como curiosidade ou medo — que uma máquina não consegue sentir.
A descrição de Longo sobre a diferença entre seres humanos e máquinas corrobora a tese acima, formulada pelos participantes no debate, segundo a qual existem características que são exclusivas dos seres humanos.